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e por isso, o elemento central do presente projeto da Biblioteca Escolar (BE).


O BlogBESSS é um espaço virtual de informação e de partilha de leituras e ideias. Aberto à comunidade educativa da ESSS e a todos os que pretendam contribuir para a concretização dos objetivos da BE:

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2. Apoiar o desenvolvimento curricular;

3. Valorizar a BE como elemento integrante do Projeto Educativo;

4. Abrir a BE à comunidade local.


De acordo com a sua natureza e integrando os referidos objetivos, o BlogBESSS corresponde a uma proposta de aprendizagem colaborativa e de construção coletiva do Conhecimento, incentivando ao mesmo tempo a utilização/fruição dos recursos existentes na BE.


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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.


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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"Sermão de Santo António aos Peixes"...

Cenário de resposta ao texto expositivo em que se mostra que a antítese
e a analogia são recursos estruturantes do cap.III do SSA [1654]
Neste sermão fortemente retórico, alguns recursos ganham especial importância, tornando-se até mesmo estruturantes para a melhor compreensão e prazer estético da obra. No capítulo III do Sermão de Santo António [1654] destacam-se como recursos estruturantes a analogia e a antítese.

Neste capítulo em específico, o Padre António Vieira evoca as qualidades particulares de quatro peixes e recorre à analogia de forma a estabelecer uma relação semântica entre cada peixe e Santo António. Um exemplo disso é quando Vieira recorre a expressões como “abrir a boca”, “coração” e “fel”. No caso do peixe de Tobias, estas expressões ocorrem em sentido literal, ou seja, abrir a boca no sentido de comer; o “coração” expulsou um demónio chamado Asmodeu; e o “fel” curou a cegueira do seu pai. No caso de Santo António, as mesmas expressões são usadas em sentido metafórico: Santo António abre a boca não para comer mas sim para falar; o seu “coração” não afugenta nenhum demónio em concreto mas sim o mal dos homens; e o seu “fel” não cura a cegueira, mas põe os homens a ver o bem.

No que diz respeito à antítese, esta aparece neste capítulo concorrendo para a construção da coerência textual e para o sucesso do discurso retórico. No capítulo III, os louvores das virtudes farão ecoar, por contraste, os defeitos dos homens. Por exemplo, a Rémora, um dos quatro peixes que António Vieira elogia, consegue determinar o rumo das naus, que representam os pecados da soberba, da cobiça, da vingança e da sensualidade (“Oh, se houvera uma Rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida e que menos naufrágios no mundo”). Para além deste exemplo encontramos mais exemplos deste recurso nas linhas 335 e 338, nas quais se faz um contraste entre gente e peixes e entre peixes e outros animais, respetivamente.

Concluindo, Vieira recorre a estes dois recursos em particular com o objetivo de conferir beleza à denúncia da condição humana e à crítica das suas mentalidades e comportamentos.

Autora: Maria Inês Antunes, 11º B
Prof. João Morais

domingo, 20 de novembro de 2016

A analogia e antítese: dois recursos estruturantes no Sermão de Santo António [1654]

O Sermão de Santo António [1654] é um texto alegórico, isto é, uma representação concreta de algo abstrato: ao nível textual, os destinatários são os peixes, uma metáfora usada por Vieira para criticar os homens ao nível da comunicação na Igreja, mais concretamente os colonos do Maranhão. Desta forma, segue o exemplo de Santo António – perante a recusa do auditório em ouvi-lo, pregará aos peixes. Para tal, recorre a diferentes tipos de argumentos, incluindo os argumentos de analogia, e também a diversos recursos expressivos, como a antítese, os quais se tornam imprescindíveis para a coerência textual e o sucesso do discurso retórico, pelo prazer estético que esse virtuosismo verbal proporciona ao ouvinte (leitor no nosso caso).
A antítese assume-se como uma forma de associação de ideias pelo contraste e pela oposição. Nos capítulos II e III, os louvores das virtudes dos peixes farão ecoar, por oposição, os defeitos dos homens: o peixe de Tobias cura a cegueira e afasta os demónios; a Rémora consegue determinar o rumo das naus, que representam os pecados da soberba, da vingança, da cobiça e da sensualidade; o Torpedo faz tremer o braço do pescador, isto é, daquele que se apropria indevidamente daquilo que não é seu; o Quatro-olhos ensina ao orador a importância de se libertar da vaidade do mundo terrestre e de pensar apenas na vida eterna. A antítese também se manifesta no capítulo V, onde se verifica um contraste entre os defeitos dos peixes e a atitude de Santo António que, sendo humilde e defensor da verdade, serve de exemplo aos homens.
A analogia é uma relação de semelhança que se estabelece entre duas ou mais entidades distintas. O capítulo III constitui um exemplo, na medida em que se estabelece uma analogia entre os peixes e Santo António: por exemplo, a força da Rémora consegue determinar o rumo das naus e a “força” da língua de Santo António domina as paixões humanas (pecados simbolizados pelas naus). Por outro lado, nos capítulos IV e V, o orador censura os peixes pelos seus defeitos, que representam pecados humanos. Em geral, os peixes comem-se uns aos outros, mais especificamente, os grandes comem os pequenos, simbolizando a antropofagia social, isto é, o facto de os homens se explorarem uns aos outros; os peixes também mostram ignorância e cegueira, à semelhança dos homens, que se deixam iludir por honras vãs ou pela vaidade. Em particular, o orador dá exemplos de quatro peixes cujos defeitos representam diversos pecados humanos: a arrogância e o orgulho (Roncador) o oportunismo e o parasitismo social (Pegador); a ambição desmedida (Voador); a hipocrisia e a traição (Polvo).

Em conclusão, com este Sermão, Vieira pretende denunciar a condição humana e rever mentalidades, objetivo este que procura atingir através da retórica, de recursos expressivos e de uma argumentação persuasiva, fazendo uso da sua engenhosidade.

Autora:  Oleksandra Sokolan, 11ºC 
Prof. João Morais

sábado, 22 de outubro de 2016

«O Sermão de Santo António [1654]: Um caso de literatura de combate»

O Sermão de Santo António [1654] insere-se na categoria da literatura de combate, sendo um texto religioso no qual o Padre António Vieira recorre à alegoria para criticar os seus ouvintes: os homens. Vieira é um homem dirigido para o mundo e para o combate de ideias, procurando incutir a sua doutrina nos homens e evitar que eles caiam no pecado, isto é, procura evangelizá-los. A alegoria manifesta-se pelo facto de, ao nível textual, os destinatários serem os peixes (l. 86: “dividirei, peixes, o vosso Sermão”), que são uma metáfora usada por Vieira para verbalizar as críticas aos homens ao nível da comunicação na Igreja, sendo estes últimos quem o orador pretende efetivamente evangelizar.
Uma vez que tiveram as mesmas dificuldades em pregar a doutrina cristã entre os homens, Vieira decide tomar S. António como exemplo e vai pregar aos peixes (ll. 57-58: “quero hoje, à imitação de S. António, voltar-me da terra ao mar, e, já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes”). Na confirmação, o orador começa por fazer referência ao facto de os peixes não se deixarem converter (dada a sua natureza irracional), passando, de seguida, à denúncia de, na sociedade em que se insere, os homens terem o mesmo comportameto, dado que não quererem mudar a sua mentalidade (ll. 63-65).
Dentro da confirmação, é estabelecido um contraste entre as virtudes dos peixes e os vícios dos homens. A analogia com S. António permite moralizar os homens, apresentando-o como exemplo e apontando-lhes o caminho que devem seguir. O Quatro-Olhos, por exemplo, tem dois olhos virados para cima e dois para baixo (ll. 353-355), havendo uma relação de analogia com S. António, que consegue distinguir o bem do mal. Este seria o exemplo a seguir, dado que “neste mundo «tudo é vaidade»” (l. 366) e a única solução seria olhar diretamente para o Céu ou para o Inferno, a fim de fugir desse pecado humano.
Já nas repreensões gerais, o orador condena o facto de os peixes se comerem uns aos outros (ll. 401-402), uma metáfora para o fenómeno de antropofagia social, que tem a ver com a dominação e a exploração que os homens exercem uns sobre os outros (ll. 428-429: “ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra”). Também se verifica uma crítica à ignorância e à vaidade, que se manifestam na sociedade humana do tempo de Vieira através daqueles que são enganados a comprar farrapos a preços elevados, e para tal levam uma vida de pobreza (ll. 574-575: “pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano”).
Finalmente, Vieira indica vários exemplos de peixes que representam vícios dos homens. A título de exemplo, os Roncadores são pequenos mas emitem um som grave (ll. 592-593), o que representa a arrogância e a soberba nos homens; o polvo tem a capacidade de se metamorfosear, simbolizando a hipocrisia e a traição (ll. 775-777). S. António, mais uma vez, é o exemplo a seguir, pois possui as qualidades que os restantes homens deviam ter: é humilde, cândido, defensor da verdade e dado à espiritualidade.

         Em suma, este sermão tem como finalidade promover as virtudes humanas e rever mentalidades através da crítica à condição humana. É, assim, um caso paradigmático de literatura de combate ideológico.

Autora: Oleksandra Sokolan, nº 23, 11ºC
Prof. João Morais

domingo, 30 de novembro de 2014

O Sermão de Santo António: pregar aos peixes para moralizar os homens

Trabalho realizado pela aluna Maria Miguel Cunha, nº 20, do 11º G
Prof. João Morais

     No Sermão de S. António, o Padre António Vieira pretende moralizar os Homens, pregando aos peixes.
     Antes de mais, deve notar-se que todo o sermão é uma alegoria, pois em todo ele os peixes são uma metáfora de Homens. Isto acontece porque António Vieira, à imitação de Santo António, percebendo que os Homens não ouviam o que ele tinha para lhes dizer, mudou de auditório e pregou voltado para o mar: “ […] quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes […]”. A situação de sermão alegórico apresentada foi possível devido à grande engenhosidade do discurso de Vieira que, ao longo do texto, utilizou variadíssimos recursos para este efeito, como são exemplo as inúmeras analogias.
     Com o conceito predicável “Vos estis sal terrae” que começa por expor, Vieira pretende passar a mensagem de que os Homens são o sal da terra, ou seja, os pregadores que, a partir da sua boa doutrina, purificarão os seus ouvintes. No entanto, os homens não cumprem o seu dever, pois a raça humana encontra-se corrompida e em pecado. É a partir deste conceito que Vieira irá desenvolver o resto do sermão, louvando as virtudes dos peixes, que contrastam com os defeitos humanos, e censurando os vícios e comportamentos dos homens através do exemplo dos peixes. 
     Vieira começa por louvar os peixes, no geral, pelas suas qualidades divinas: “[…] aquela obediência, […] e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António.”; louva-os também “[…] por este respeito e devoção que tivestes aos pregadores da palavra de Deus […]”. Depois louva-os pelas suas qualidades naturais: os peixes não se domesticam e vivem em retiro, longe do pecado dos homens. De seguida, Vieira aponta alguns casos particulares de peixes com qualidades exemplares, como o são o peixe de Tobias, a Rémora, o Torpedo, e o Quatro-olhos, comparando-os com as qualidades de Santo António. O peixe de Tobias tem propriedades curativas e purificadoras; a Rémora tem o mesmo tamanho pequeno e a mesma força que a língua de Santo António; o Torpedo faz tremer os pescadores como Santo António faz “tremer” as consciências; e o Quatro-olhos olha simultaneamente para cima e para baixo, tal como Santo António nos faz olhar para o bem e para o mal.
     De seguida, são tratadas as repreensões gerais dos peixes, que Vieira também equipara com as dos Homens. Primeiramente, Vieira aponta que os peixes se comem uns aos outros, tal como os homens se destroem mútua e constantemente para atingirem os seus objetivos. Para tornar mais explícita esta analogia dos peixes com os homens, Vieira afirma que os peixes são “[…] todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos […]”, ou seja, utiliza expressões que remetem para a organização social da vida humana, e recorre a exemplos de instituições criadas pelos humanos, como a justiça, a saúde, e a família. Na segunda repreensão, Vieira critica a ignorância e a cegueira dos Homens, de novo através de analogias com os peixes, que, tal como estes, facilmente são pescados: “[…] quanto me lastima em muitos de vós é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. […] Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignoradamente.”. Tal como os peixes se deixam enganar pelos engenhos dos pescadores, os homens deixam-se muito facilmente enganar por aqueles que se tomam como seus superiores em inúmeras situações da sua vivência, como na colonização, nos Descobrimentos, nas ordens religiosas, na organização social e no comércio: “Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não têm gasto; e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço;”. 
     Vieira passa, assim, para as repreensões dos vícios de quatro peixes em particular, com o intuito de os evidenciar nos homens. Começa por repreender os roncadores, que, sendo tão pequenos, são arrogantes (“É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?!”). Repreende igualmente as rémoras pelo seu oportunismo e ronha (“ […] sendo pequenos, não só se chegam aos outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram.”); os voadores pela sua ambição e presunção (“Não contente com ser peixe, quiseste ser ave […]”); e o polvo por ser um hipócrita e traidor, os piores defeitos de todos “[…] monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!”. Desta forma, os vícios destes quatro peixes funcionam como metáforas dos vícios dos colonos de São Luís do Maranhão e da condição humana em geral.
     Finalmente, o orador utiliza a peroração para recapitular os aspetos do seu discurso e reforçar a igualdade entre os defeitos dos peixes e dos homens, através de um último aspeto. Vieira equipara de novo as duas espécies, lembrando que os peixes não podiam ser sacrificados por Deus, pois morrem fora de água, e que, pelo contrário, os homens, podendo sacrificar-se por Deus, também chegam em pecado e sem arrependimento ao altar: “[…] quantas almas chegam àquele altar mortas, porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal!”. Vieira acaba o seu discurso de forma humilde mas também tenebrosa, pois acrescenta que os seres humanos falham perante Deus porque a sua inteligência destrói a sua inocência e pureza, enquanto os peixes as conservam, pois são seres irracionais, não dotados de livre arbítrio, o que os conduz por caminhos mais próximos de Deus. Com isto, apela aos seus ouvintes para que respeitem, venerem e louvem a Deus. Ora, como os peixes não têm, realmente, características e capacidades humanas, infere-se que Vieira se referia aos humanos também nesta parte do seu discurso.
     As virtudes dos peixes são, então, a antítese dos defeitos humanos, e transparece a superioridade dos peixes relativamente à natureza humana, incluindo a do próprio Vieira; e os seus vícios são uma metáfora direta dos vícios dos homens, que são evidenciados por analogia.
    Para finalizar, podemos concluir que, através de uma multiplicidade de estratégias para dirigir as suas críticas aos homens, António Vieira consegue, de uma forma espantosa, repreender e levar os homens à mudança dos seus comportamentos e vícios, através de uma pregação aos peixes.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Sermão de S. António aos Peixes: um caso de literatura de combate


No
No Sermão de Santo António aos Peixes, o orador privilegia, de facto, a vertente de combate de ideias, que se inscrevem numa grande variedade de domínios, que acabarão por refletir o pensamento de grande homem do mundo que foi o Padre António Vieira.

No capítulo I, o exórdio, o Padre António Vieira começa por utilizar um conceito predicável (“Vos estis sal terrae”: “Vós sois o sal da terra”) que, alicerçado na autoridade de S. Mateus, nos permitirá concluir que Vieira defende que os homens não querem receber a verdadeira doutrina (“ não se deixam salgar”). Para reforçar esta atitude dos homens e os seus defeitos, Vieira recorre à figura da antítese entre peixes e homens ao longo dos capítulos II e III. Deve fazer-se notar, ainda, a referência ao Santo António, que, em muitos casos por analogia com os peixes, é o exemplo a ser seguido pelo auditório.

No capítulo II, inicia-se a construção de uma estrutura alegórica e a Divisão do sermão: primeiro, serão pregados os louvores dos peixes e, seguidamente, os seus defeitos. Ainda neste capítulo, dá-se a Confirmação, expondo-se as qualidades gerais dos peixes. Temos então as divinas – obediência, ordem, quietação e atenção (“[…] aquela obediência […] e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus […]”) – e as naturais – não se deixam domesticar pelo homem, ao contrário de outros animais (“[…] Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam […]”). Ocorre, então, a antítese entre peixes e homens, em que os peixes assumem um valor positivo.

No terceiro capítulo, o Padre António Vieira evoca as qualidades particulares de quatro peixes: o Peixe de Tobias, cujo fel cura a cegueira do pai e cujo coração afasta o demónio da casa (sentido literal) – também Santo António, com o fel, cura a cegueira dos homens e utiliza o coração para afugentar o mal humano (sentido figurado) –; a Rémora, que se pega ao leme da nau e a amarra (sentido literal) – também a língua de Santo António domou a fúria das paixões humanas: Soberba, Vingança, Cobiça e Sensualidade (sentido figurado) –; o Torpedo, que faz tremer o braço do pescador, impedindo-o de pescar (sentido literal) – Santo António fez tremer vinte e dois pescadores que ouviram a suas palavras e se converteram (sentido figurado); e o Quatro-olhos, que se defende dos peixes e das aves (sentido literal). Este é, para além disso, o peixe que ensinou o pregador a olhar para o Céu (para cima) e para o Inferno (para baixo).

No capítulo IV, é iniciada a repreensão aos peixes com os seus defeitos gerais: comem-se uns aos outros, mesmo sendo do mesmo elemento, da mesma pátria, da mesma cidade (“[…]da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! […]”); e são ignorantes e cegos ao ponto de se deixarem explorar. Neste capítulo os peixes assumem o valor negativo antes pertencente apenas aos homens (“[…] Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós […]”), pelo que o recurso estruturante é a analogia e já não a antítese.

De seguida, inicia-se a repreensão aos peixes relacionada com os seus defeitos particulares e Vieira refere-se a outros quatro peixes: os roncadores, que têm como defeitos a arrogância e o orgulho (“[…] É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?![…}”) , traços que se reatualizam, ao nível do homem, com Pedro, Golias, Caifás e Pilatos; os pegadores, devido ao facto de serem parasitas (“[…] sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas tal sorte se lhes pagam aos costados, que jamais os desferram […]”), características que se reatualizam em toda a família da corte de Herodes e em Adão e Eva; os voadores, que são presunçosos, ambiciosos e caprichosos (“[…] matai-vos a vossa presunção e o vosso capricho […] Grande ambição é que […] queira outro elemento mais largo […]”), aspetos que se reatualizam em Simão mago; e o polvo devido à sua hipocrisia e traição (“ […] o dito Polvo é o maior traidor do mar […]”), ultrapassando Judas enquanto símbolo.

Por fim, no capítulo VI, dá-se a peroração em que Vieira louva Deus como reforço da crítica e afirma que o sermão não irá acabar em Graça e Glória porque o auditório – homens ao nível da comunicação, entenda-se – não é detentor de tais qualidades.

Em síntese, podemos concluir que o Sermão de Santo António aos Peixes tem, de facto, uma vertente de combate de ideias pela crítica que é feita aos homens e aos seus comportamentos. Para a efetivação dessa mesma crítica, o orador recorre à alegoria e a analogias ao longo de todo o sermão. Os signos que se produzem no texto configuram-se com um significado coerente ao nível da comunicação, que é dirigida aos interlocutores habilitados a descodificar a denúncia e os objetivos edificantes que serviram de exemplo para os homens, que “se não deixam salgar”. O Padre António Vieira tem, então, como fim da pregação do sermão a mudança de comportamentos, podendo, de facto, afirmar-se que o seu discurso, ultrapassando a simples evangelização no sentido mais religioso, privilegia a vertente de combate de ideias.

Prof. João Morais

sábado, 20 de novembro de 2010

A Vida e Obra do Padre António Vieira (1608-1697)


Pe António Vieira (1608-1697)

Vida e Obra...

Nasce em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1608, filho de Cristóvão Ravasco e Maria de Azevedo.
Lisboa








O pai, Cristóvão Ravasco é nomeado escrivão da Relação da Baía e em 1614 António Vieira, seu irmão Bernardo e os pais passam a viver no Brasil.

São Salvador da Baía
Colégio dos Jesuítas

António Vieira estuda no Colégio dos Jesuítas de S. Salvador da Baía. Em 1623 ingressa como noviço na Companhia de Jesus, prosseguindo os seus estudos com distinção.


Em 1624, na sequência de um ataque holandês à cidade da Baía, Vieira e os jesuítas refugiam-se no sertão. 
 
Fica a conhecer mais profundamente o dialecto e costumes dos índios e empenha-se na defesa destes.


Aos 18 anos é nomeado professor de retórica no Colégio de Olinda.

Colégio de Olinda




Entre 1635 e 1640 é ordenado padre, é Mestre em Artes e ganha prestígio como pregador.


Púlpito (São Salvador da Baía)




D. João IV

Entre 1641 e 1645 está em Portugal onde vem manifestar a fidelidade da colónia do Brasil ao novo rei D.João IV, de quem se torna amigo e confidente. É nomeado pregador régio e, nessas funções, é um aliado valioso da política real.

Entre 1646 e 1650 desenvolve intensa actividade diplomática ao serviço de D. João IV e de Portugal em diversas capitais europeias, inicia a sua obra profética História do Futuro (1649)e é ameaçado de expulsão da Ordem dos Jesuítas.


 Entre 1652 e 1661 está nas missões do Brasil, evangelizando os índios. Vem a Portugal em 1654 e consegue fazer aprovar leis mais favoráveis para os proteger, mas acaba sendo expulso com outros jesuítas pelos colonos do Maranhão. 

É neste período que prega alguns dos seus sermões mais notáveis.
Entre 1662 e 1668, perdida a protecção de D.João IV, que morre em 1656 e da rainha, D.Luísa de Gusmão, que deixa a regência após o golpe que entrega o poder a D. Afonso VI, o Pe António Vieira é perseguido, preso e condenado pela Inquisição. 

Na base das acusações de heresia estaria um seu manuscrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, primeira e segunda vida del-rei D. João IV. Posteriormente é amnistiado, mas é-lhe retirado o direito de pregar e discutir certas matérias.

Entre 1669 e 1675 vive em Roma.Ganha grande notorieda-de como pregador e denuncia combativamente as práticas da Inquisição, contra a qual obtém a protecção papal. É convidado pela rainha Cristina da Suécia para seu pregador.

 
Entre 1675 e 1681 está em a Lisboa, onde regressa por ordem do rei D. Pedro II, mas é mantido afastado da actividade política. 






Em 1679 inicia a edição dos seus Sermões.


Entre 1675 e 1681 está em Lisboa, onde regressa por ordem do rei D. Pedro II, mas é mantido afastado da actividade política.

A partir de 1681 regressa definitivamente ao Brasil. Prossegue a sua obra evangelizadora, continua a edição dos seus Sermões e a redacção da sua obra profética Clavis Prophetarum. É nomeado Visitador Geral dos Jesuítas no Brasil (1688), mas renuncia ao cargo em 1691 devido à sua idade avançada e falta de saúde.



Em 1697, morre a 18 de Julho, na Baía, com 89 anos


Bibliografia
Saraiva, António José, História da Literatura Portuguesa, 1º volume Editorial Estúdios Cor, SARL, Lisboa, Dezembro 1966;
Prado Coelho (direcção), Jacinto do, Dicionário de Literatura, vol. 4, 3ª edição, Ed. Figueirinhas, Porto, 1973;

Páginas WWW

academialiteraria.blogspot.com/2009_03_01_arc...;
embaixada-portugal-brasil.blogspot.com/2008/0...;
www.jornalcontato.com.br/335/licao/index.htm;
http://farm2.static.flickr.com/1104/1018102173_0ce0388b58.jpg;
www.popa.com.br/.../pe_antonio_vieira.htm;
 mosteirosvicentedefora.blogs.sapo.pt/;
www.lpm-editores.com.br/livros/go.asp?LivroID...
bibesjcp.no.sapo.pt/PAV.htm
 www.oocities.com/athens/atrium/2466/sermoes.html
bmfunchal.blogs.sapo.pt/2008/02/;
arquivohistoricomadeira.blogspot.com/2009/04/...
www.intellectadesign.com.br/2007/04/o-padre-a...

Recolha e organização: Maria da Conceição Reis