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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.


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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Mensagem – a superação da história e do concreto e uma atitude empreendedora do futuro

A Mensagem, de Fernando Pessoa, constitui um conjunto de poemas de natureza lírica com contaminação épica, com forte dimensão simbólica. A obra encontra-se dividida em três partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto.
A primeira parte simboliza o nascimento de Portugal, abordando as contribuições dos vários heróis para a fundação da nação. Dentro da secção “Os Castelos”, Ulisses terá erguido a cidade de Lisboa e enriquecido a cultura e o imaginário dos portugueses com a cultura grega. Apesar de este mito não ter uma natureza factual, valoriza a realidade e enche de sentido a essência dos portugueses. 
Para Pessoa somos essencialmente valores! 
Um outro herói da obra, D. Dinis, planta pinhais intuindo que, futuramente, eles serão utilizados na construção de naus. Contribui, assim, para os Descobrimentos e a consequente glória do povo português. D. Sebastião, glorificado na secção “As Quinas”, assume uma dimensão espiritual, pondo em relevo o sacrifício que imortaliza e glorifica o ser humano. A sua loucura trouxe-lhe grandeza e distinguiu-o do vulgo, transformando-o num símbolo de ousadia e conferindo-lhe uma dimensão mítica, que vai além da sua dimensão histórica: “Ficou meu ser que houve, não o que há” in “D. Sebastião, Rei de Portugal”. 
A segunda parte simboliza a vida, isto é, a expansão e afirmação do Império. O Infante é considerado o impulsionador dos Descobrimentos, o eleito para principiar a descoberta dos mares e a unificação dos continentes, cumprindo, deste modo, a predestinação divina de os portugueses construírem um Império. “O Mostrengo” simboliza os perigos com que o herói se confronta diante do desconhecido. Esse herói plural é designado o “homem do leme”, uma sinédoque referente a uma coletividade que vence os seus medos e triunfa sobre os limites da humanidade, conferindo um tom épico ao poema. Do mesmo modo, o poema “Mar Português” defende a importância do sofrimento na superação dos limites. No final desta parte, é feita uma “prece” que mostra um desejo de superação da decadência visível no presente. Permanece a esperança de uma futura renovação divina, não passando esse sonho, no entanto, de uma utopia, que nem por isso deixará de ser o primeiro e último propósito do herói da Mensagem.
A última parte simboliza a decadência de Portugal, seguida pela manifestação de um sonho de renovação. Pessoa defende o advento do «Quinto Império», um império universal e espiritual que substituirá os quatro antecessores. Para tal se realizar, é necessário que o ser humano se desprenda da felicidade supérflua, do conforto e da passividade, e que enfrente a insatisfação inerente à natureza humana na forma de ambição, da «loucura» ficando disposto a superar as dificuldades e a distinguir-se dos demais, distanciando-se da mediocridade. O terceiro “Aviso”, cuja ausência de título configura uma co-referência com o autor do «livro», faz transparecer o sofrimento de Pessoa resultante da decadência da nação, que se refugia num futuro redentor. As diversas interrogações evidenciam a sua ansiedade, uma expectativa pela vinda de uma figura mítica que salvará a Pátria através da renovação espiritual. O poema final, “Nevoeiro”, apresenta críticas à indefinição, nomeadamente a de valores, transmitindo ideias de morte e de fragmentação que assombram a Pátria: “Ninguém sabe que coisa quer / (…) Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…” in “Nevoeiro”. Pessoa finaliza a obra com o apelo “É a Hora!”, uma exclamação que impele os seus conterrâneos coevos a tomarem a iniciativa com o objetivo de inverter a situação de decadência em que se encontram e restaurar a glória que o povo português experimentou em tempos.
Na Mensagem, os heróis ultrapassam, assim, a realidade histórica em que se inscrevem e adquirem o estatuto de mito, servindo de modelos de superação humana. Pessoa faz renascer o mito do sebastianismo com a intenção de exortar outros a tomarem o sonho que outrora moveu D. Sebastião, ansiando a renovação de Portugal e a construção de um novo império, de caráter universal e espiritual.

Autora:  Oleksandra Sokolan, 12º B
Prof. João Morais

quinta-feira, 24 de março de 2011

Análise do poema “Noite” (in Mensagem)

Trabalho realizado por  Inês Silva Machado, nº 16,  12º A, 2010/11 
Prof. João Morais

A Mensagem, obra poética de Fernando Pessoa, exprime o ideal patriótico, sebastianista e regenerador de uma nação que deve renascer espiritualmente: Portugal. A estrutura tripartida da obra sugere os três momentos do Império Português: o nascimento, o amadurecimento e a morte, e o restante percurso da obra heróica: “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce” (“Infante”). O Homem tem de intuir a vontade de Deus, que culmina na realização da obra e do Império. No entanto, esta morte não é definitiva e propõe o ressurgimento de uma nação que está em decadência. O poema “Noite” dá luz à terceira parte da obra, “O Encoberto”, e expressa o desejo do renascimento e da reconquista de uma alma e de uma identidade perdidas, e apela à mudança e à acção dos portugueses na construção de um Império futuro, o Quinto Império, que não se inscreve na esfera do terreno (como os Descobrimentos), mas sim naquilo que é espiritual e imaterial.
É, desde logo, pela leitura do título que nos apercebemos da sua configuração simbólica. Existe a expectativa de algo acontecer (“névoa escura”) na medida em que a “Noite” é o tempo cósmico de gestação de alguma coisa apesar de, simultaneamente, também simbolizar o tempo da morte e do mistério. Associada à “Noite”, a “névoa” é uma indefinição de formas, é um impedimento que cria a hipótese de ressurgimento e revelação de novas realidades. A “ânsia” pela reabilitação da pátria leva o sujeito poético a relembrar os heróis que permanecem na memória colectiva e que são exemplos de dignidade e do que permitirá reestabelecer a pátria. Há a alusão aos irmãos Corte-Real, que intervieram na exploração do Canadá, que pertencem a um colectivo que sonhou, procurou e superou surgindo inicialmente como referentes históricos mas adquirindo um valor simbólico e espiritual instituído pela morte física.
Além da estrutura trinitária da Mensagem, que representa os momentos do herói e o percurso da obra heróica, também este poema d’ “Os Tempos” se associa ao número três visto que se encontra dividido em três momentos e se refere a três irmãos, o que confere ao mesmo número um valor simbólico: representa, assim, a perfeição e a totalidade.
O primeiro momento corresponde às duas primeiras estrofes e diz respeito ao passado enquanto tempo da descoberta e da superação refirindo-se, então, aos heróis dos Descobrimentos (“na fé e na lei/ Da descoberta, ir em procura”), aqueles que nunca atingem a satisfação e a felicidade e que se distinguem do animal (“Ser descontente é ser homem” – in “O Quinto Império”). O mar tem uma configuração simbólica na medida em que é o local onde os portugueses superaram os limites representando a conquista humana em relação ao conhecimento. Já a terceira e quarta estrofes representam, após a morte concreta dos heróis, o presente, isto é, a decadência do Império (“Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez”in “O Infante) e a vontade de reabilitação da morte dos dois irmãos, da pátria, concretizada pelo terceiro irmão (“olhos rasos de ânsia/ Fitando a proibida azul distância”). O “Poder” e o “Renome” são a alusão simbólica a dois referentes históricos, os irmãos Corte-Real, que estão aqui desmaterializados para vencer o tempo (natureza do mito). A estrofe final é um apelo a Deus, enquanto entidade abstracta, pelo ressurgimento do Império (“A Deus as mãos alçamos”).
O sujeito poético termina com “Mas Deus não dá licença que partamos”, que estabelece uma relação com o último verso de “Nevoeiro” – e da obra –, “É a Hora!”, determinando, assim, a necessidade de criação de um Império Espiritual e revelando o desejo de um renascimento: está na altura de Portugal se reabilitar enquanto nação, o que se compagina com o louvor a “Deus” (“A Deus as mãos alçamos”).
Quanto à estrutura externa, o primeiro poema d’ “Os Tempos” é caracterizado pela irregularidade métrica e por um ritmo rápido relacionado com a estrutura narrativa do poema, que é realçada pelo recurso a sucessivos transportes. A existência de cinco sextilhas e de cinco poemas em “Os Tempos” confere ao número uma simbologia de ordem, equilíbrio e harmonia, característica desta parte da Mensagem em que o Império desfeito é substituído pelo desejo de um reino imaterial e espiritual onde termina o caos e inicia a ordem. Em suma, a composição apela à acção dos portugueses na construção de uma nova realidade e expressa a ânsia messiânica da criação do Quinto Império.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Herói da Mensagem e o herói d’Os Lusíadas

Trabalho realizado por Rita André12º B, 2010/11 
Prof. João Morais


Na obra do poeta Luís de Camões, o Herói apresentado na Proposição não é uma personagem mas sim um colectivo, ou seja, é constituído pelos Portugueses Ilustres, a saber, os Navegadores, os Guerreiros, os Reis, entre outros que se imortalizaram com actos heróicos: “E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando” (Canto I, est.2).
O Herói da obra de Fernando Pessoa é uma personagem (passe a sinédoque) criada pelo poeta, a entidade “nós”, referindo-se a si próprio e aos leitores que se identificam com a sua concepção de um Portugal Espiritual, no qual é captada a essência do país e a sua missão por cumprir. Todas as personagens históricas mencionadas pelo poeta, como D. Dinis, D. Afonso Henriques e D. Sebastião, têm um significado simbólico e emancipam-se da sua configuração histórica para serem transformados em mitos. Por exemplo, D. Sebastião, que morreu na Batalha de Alcácer-Quibir, não morre aos olhos do poeta, que considera que este rei ressurgiu na memória colectiva: “Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?” (in “O Quinto Império”).
Existem semelhanças entre os heróis dos dois poetas como a presença da fragilidade e do medo, que caracterizam o ser humano, mas também a força para superar as dificuldades e a sua divinização. N’ Os Lusíadas, a debilidade da condição humana está presente nas reflexões do poeta: “Onde pode acolher-se um fraco humano/ Onde terá segura a curta vida.” (Canto I, est. 106), e a superação dos obstáculos que pode ser encontrada no episódio do Gigante Adamastor: “Dizendo nossos Fados, quando, alçado, / Lhe disse eu: «Quem és tu?...»” (Canto V, est.49). No poema “O Monstrego”, na Mensagem, Pessoa cita as mesmas características: o receio inicial que o homem do leme apresenta na presença do monstro e a superação quando enfrenta o seu medo – “Três vezes do leme as mãos ergueu, / Três vezes ao leme as reprendeu, / E disse ao fim de tremer três vezes:”.
Outra semelhança é o desfecho trágico no qual a glória é marcada por sofrimento e lágrimas, como podemos observar pela análise do episódio “Despedidas de Belém” – “A desesperação e frio medo/ De já nos não tornar a ver tão cedo”— e num dos poemas da Mensagem “Mar Português”: “Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”.
A mitificação do Herói aproxima as duas obras, cada uma a seu modo: n’Os Lusíadas os navegadores portugueses interagem com as Deusas no amor e num banquete, sendo elevados por Vénus à condição de Deuses. Assim defende a Deusa do Amor: “Os Deuses faz descer ao vil terreno/ E os humanos subir ao Céu sereno” (Canto IX, est.20). Na obra de Pessoa, o Herói não é inserido em quaisquer coordenadas de tempo e espaço, sendo por isso intemporal: “Eras sobre eras se somem/ No tempo que em eras vem” (in “O Quinto Império”), adquirindo uma configuração mítica resultante da concretização divina que o distingue do resto do povo: “Cadáver adiado que procria?” (in “D. Sebastião Rei de Portugal”).
As obras analisadas foram escritas em séculos muito diferentes – Os Lusíadas no séc. XVI e a Mensagem no séc. XIX – que correspondem, efectivamente, a períodos distintos da nossa História, suscitando, deste modo, diferenças ao nível dos objectivos das obras e das características do seu Herói.
O poeta Luís de Camões viveu no Período Renascentista, que colocava o Homem no centro do mundo (antropocentrismo), dando-lhe a possibilidade de escrever o seu próprio destino. Nesta época, em Portugal, vivia-se um período próspero devido à política expansionista dos Descobrimentos, propício à escrita de uma epopeia a louvar as aventuras dos portugueses. O poeta Fernando Pessoa viveu num período conturbado da História, com a queda da Monarquia, o fracasso da República e a instauração da Ditadura do Estado Novo. O país passava por dificuldades financeiras. Dominava uma falta de esperança na renovação de Portugal. Para tentar minimizar estes obstáculos, o poeta escreveu a Mensagem, com o intuito de louvar Portugal e tentar diminuir o sentimento de negativismo que a sociedade vivia. O seu amor pelo país resulta numa posição espiritual, definida pela procura do que não existe, e pela loucura consciente, que lhe permite a realização de grandes feitos.
Enquanto o Herói d’Os Lusíadas é dinâmico, corre inúmeros perigos e ultrapassa grandes aventuras terrenas – “Em perigos e guerras esforçados/ Mais do que prometia a força humana” (Canto I, est.1) –, o Herói da Mensagem é estático, baseando-se na utopia e no indefinido, onde o abstracto prevalece sobre o concreto – “Louco, sim, louco, porque quis grandeza/ Qual a sorte a não dá” (in “D.Sebastião, Rei de Portugal”).
Na obra de Camões é narrado um acontecimento da História de Portugal, a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, que é concluído com a chegada da frota de Gama a Calecut. Aqui existem marcas de tempo e espaço: esta viagem ocorreu na realidade e o poeta narra os locais por onde passaram os navegantes e as vivências que experimentaram. Na Mensagem estas marcas não se encontram presentes; a obra adquire um valor intemporal. Os elementos descritivos e narrativos são suprimidos, como podemos observar no poema “Horizonte”. O poeta não descreve uma viagem nem um império terreno, muito menos canta a guerra contra os infiéis. O seu Herói concentra a sua atenção num além, numa utopia e valoriza a sua procura em relação à descoberta de algo concreto – “Quando é o Rei? Quando é a Hora?/ Quando virás a ser o Cristo” (in “Screvo meu livro à beira-mágoa”). Assim, na obra de Pessoa tudo tem um carácter mental e conceptual.
Relativamente ao prémio atribuído ao Herói depois do seu esforço, n’Os Lusíadas essa recompensa foi a Ilha dos Amores e as suas ninfas (Canto IX e X), que, num episódio simbólico, conferiram dignidade aos nautas e os elevaram ao estatuto de Deus através do amor físico. Na obra de Pessoa não existe este tipo de reconhecimento: o Herói acaba por perseguir um ideal que se encontra sempre num referencial longínquo como o horizonte: “Buscar na linha fria do horizonte/ A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte /Os beijos merecidos da Verdade”. Logo nunca alcança o prémio, continuando na sua procura incessante.
           Para finalizar, Fernando Pessoa e Luís de Camões foram dois dos maiores poetas portugueses e partilharam ideais como o patriotismo e o desejo de reabilitação do tempo do presente. Sublinhemos, porém, uma diferença marcante: Pessoa era um intelectual que deu mais importância à procura de uma ideia utópica enquanto Camões era um homem de acção que preferiu cantar os feitos bélicos do seu povo.

terça-feira, 15 de março de 2011

O herói da Mensagem versus o herói d’Os Lusíadas

Trabalho realizado por Janete Serra, nº 7,  12º B, 2010/11 
Prof. João Morais


Entre a célebre obra de Camões, Os Lusíadas, e a grande obra de Pessoa, Mensagem, existem semelhanças e diferenças. A forma como o herói é apresentado e retratado é uma dessas diferenças.
N’Os Lusíadas o herói inscreve-se num tempo, aquele em que decorre a viagem para chegar à Índia. Pelo contrário, na Mensagem o herói não se inscreve num tempo e num espaço. Enquanto na obra de Camões se fala de algo que aconteceu, na obra de Pessoa os heróis vão-se desmaterializando e são como símbolos que configuram intemporalidade. Na Mensagem as figuras heróicas são emblemáticas de um conjunto de valores que permanecem na memória colectiva do Povo português. Vejamos o texto “Ulisses”, que pertence à primeira parte da obra, “Brasão”:
“Este [Ulisses], que aqui aportou, / Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou.”
Ou seja, Ulisses é um herói mítico que, apesar de não ter existido, tem uma representação espiritual e simboliza o herói da Antiguidade e, assim, ficou na nossa (leitores e poeta) memória colectiva. Esta memória confere coerência à partilha de valores colectiva.
N’Os Lusíadas o herói inscreve-se, pelo contrário, numa mensagem realizada a partir dos seus grandes feitos e recompensas, que são exaltados pelo poeta de maneira a incentivar o Rei D. Sebastião a manter a imagem heróica que foi lhe é transmitida no Poema, relativamente aos portugueses. Camões vive no tempo do Rei e, assim, ainda tem esperança de que os portugueses se reergam. O poeta retrata o Rei com uma existência física e realça o facto de ele ser superior e honrado por expandir a cristandade:
“E vós (Rei), […] E não menos certíssima esperança / De aumento da pequena Cristandade”.
 (in “Dedicatória”)

Na Mensagem, Pessoa retrata D. Sebastião como um “louco”, mas positivamente. No texto “D. Sebastião rei de Portugal”, o rei fala como se estivesse vivo porque ele, apesar de ter morrido fisicamente, continua presente na memória dos portugueses, pois a sua bravura não será esquecida. O rei é louco porque ambiciona e quer aventura e, por isso, morre:
“Louco, sim, louco, porque quis grandeza.
O poeta especifica que existem duas perspectivas de D. Sebastião, uma passada, D. Sebastião que existiu em carne e osso, e uma do seu tempo, o mito:
“Ficou meu ser que houve, não o que há.”
Assim, D. Sebastião, representado espiritualmente, anuncia possíveis aventuras futuras, novas conquistas, novas terras.
Camões tem uma visão mais antiga do herói: para ele o herói tem de mostrar virilidade e ir em busca de aventura, enquanto a mulher fica em casa. Deste modo, esta visão clássica, Grega, do herói resulta na superação de todos os obstáculos que aparecem no caminho dos portugueses – o Gigante Adamastor, as ciladas de Baco – enquanto na Mensagem apenas na segunda parte, “Mar Português”, podemos considerar a busca de obstáculos e sua superação.
 Em “O Infante” o poeta anseia pela elevação de Portugal:
“Senhor, falta cumprir-se Portugal!”
Enquanto Camões incentiva e espera que Portugal regresse à sua grandeza, Pessoa é mais sombrio e apenas sonha que os portugueses fiquem descontentes com a decadência em que se encontram e não se conformem, o que é realçado na terceira parte da obra, “O Encoberto”:
“Triste de quem vive em casa / Contente com o seu lar.
 (in “O Quinto Império”)

Deste modo, “O Quinto Império” simboliza esse sonho apesar de o Império já se ter cumprido e agora restar apenas um Império futuro que poderá ou não revelar-se.
O “Nevoeiro” simboliza a confusão em que o país se encontra e também a mente que o Povo tem, pois pensa que fomos grandes mas já não o seremos. Assim, este texto representa um fumo, uma sombra que é a cabeça dos portugueses:
“Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”
Mas o poeta faz uma chamada de atenção para que esta situação mude e para que o Povo se reafirme:
“É a Hora!”
N’Os Lusíadas não há esta sombra, mas sim a força para que os portugueses superem todas as dificuldades e sejam vencedores, sendo superiores até atingir o nível dos Deuses, tanto que na Ilha dos Amores até as ninfas se apaixonam por eles de tão importantes –também no Amor… – que eles são. Assim, os Portugueses são recompensados por terem lutado por um objectivo e pelo Amor.
Resumindo, na Mensagem todos os heróis formam uma força que o poeta deseja que se reerga no futuro reabilitador da decadência em que Portugal caiu, mas esta expectativa resulta na utopia que nunca será atingida e, por isso, Pessoa apresenta o herói de uma forma sombria e contemplativa. Por oposição a esta negatividade, Camões retrata os Portugueses como heróis activos e grandiosos que se irão destacar outra vez e acredita que vencerão o desconhecido e serão donos do seu próprio destino.