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PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A Infância em Álvaro de Campos


Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa com a obra mais diversificada do ponto de vista da sua evolução e múltipla reactualização de tendências estéticas, explora o tema da infância num corpus muito considerável dos seus textos.

A infância é representada enquanto época feliz, o tempo em que o sujeito poético experimenta alegria, o que se opõe à realidade do presente, que corresponde ao tempo de infelicidade e de tédio.

No poema “Aniversário”, o sujeito poético, numa primeira parte, descreve as rotinas festivas que se passavam na sua infância (“A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,/ O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado”). Relatam-se esses dias de celebração, sendo dias felizes, de alegria partilhada pela família, de inocência e despreocupação, adquirindo uma dimensão mítica, pois ultrapassa as coordenadas do espaço e do tempo (“[…] era uma tradição de há séculos”). Ainda no mesmo texto, Campos lamenta-se por a infância se encontrar tão longe (“A que distância!...[…]/O tempo que festejava os meus anos!”) e por ser irrecuperável (“O que sou hoje é terem vendido a casa”). 

Álvaro de Campos, numa visita a Lisboa, escreve o poema “Lisbon Revisited (1923)”, para exprimir a sua abulia para com a sociedade moderna. Através de um tom coloquial e provocatório, afirma que na Lisboa da sua infância havia mais felicidade que na da atualidade (“Ó ceu azul – o mesmo da minha infância - / Eterna verdade vazia e perfeita”, “Ó magoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!”). 

No poema “Ode Marítima”, o sujeito poético encontra-se num cais ao amanhecer e observa um paquete e toda a vida marítima ao seu redor (“Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão”). À medida que o paquete começa a aproximar-se, o sujeito poético começa a perder a lucidez começando a pensar em piratas, os seus brinquedos prediletos quando criança (“Ó cousas navais, meus velhos brinquedos de sonho!”), mas, ao pensar em todas as brutalidades que os piratas faziam, dá-se conta de que a sua infância acabou e a sua inconsciência também (“E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim”; “Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?”).

Este tempo de felicidade afigurar-se-á irrecuperável num corpus significativo da sua obra.

Para além do poema “Aniversário” já referido anteriormente, também em “Datilografia”, o sujeito poético afirma que a infância é o tempo para ser feliz (“Temos todos duas vidas: / A verdadeira, que é a que sonhámos na infância”), pois ainda não sabemos ler, nem pensar e só sentimos (“Há só ilustrações de infância: / Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;”). O sujeito lírico idealiza a infância (“Outrora, / Quando fui outro, eram castelos e cavalarias”), mas acaba por acordar, devido ao barulho das máquinas, e dá-se conta do tédio e da angústia que sente na vida adulta (“Nesta morremos […] Se, desmeditando, escuto”). Surge, porém, no final do texto, a impossibilidade de, dado o “estalar” das máquinas, o sujeito dispersar-se e já não conseguir alhear-se do espaço físico – e do tempo presente! – da sua vida.

Na poética de Álvaro de Campos há, assim, uma oposição passado presente, que se configura no binómio infância idade adulta, numa representação maniqueísta que o aproxima do ortónimo bem como dos outros heterónimos. O tema da infância, não obstante o tratamento específico que tem nas diferentes máscaras pessoanas, acabará por conferir unidade à obra de Pessoa.

Cenário de Resposta do Grupo III do 1º Teste de Português

Mariana Araújo, 12º A
Professor João Morais

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Álvaro de Campos e Walt Whitman

     Trabalho realizado por Janete Serra, 12º B, 2010/11
                                             Prof. João Morais
                                                                               
            «[...] Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos
             Mas o tour de force malogrou-se: 
             depois de 1916, Campos virá a ser poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.

Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, num crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:»
                                 Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, 6ª ed., Lisboa, Verbo, 1980.
  
     Na fase futurista de Álvaro de Campos podem-se encontrar semelhanças e algumas diferenças relativamente aos poemas de Walt Whitman, em Canto de Mim Mesmo.
As semelhanças encontram-se ao nível de alguns temas, que são abordados por ambos os poetas, e ao nível da estrutura dos poemas, enquanto as diferenças estão principalmente relacionadas com a tendência de Campos para o pessimismo.
As semelhanças prendem-se, por um lado, com aspectos como as sensações, o corpo, as máquinas e a fraternidade ou igualdade para com todos. Por outro lado, além dos temas, ambos os poetas escrevem os seus poemas com uma estrutura formal irregular e livre.
Whitman vê tudo e todos da mesma maneira, tendo tudo e todos o mesmo valor, o que mostra a ideia da fraternidade e da igualdade:
“E que todos os homens alguma vez nascidos são também meus irmãos, e / as mulheres minhas irmãs e amantes”, p. 17; “Sou o camarada e o companheiro das pessoas [...]”, p.21; “[...] (amo-o, ainda que não o conheça)”, p.37; “Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas”, p. 75; ”Infinito e de todas as espécies sou, e igual a elas sou”, p.79; “ [...] nem um único será omitido.”, p. 121.
Também se pode encontrar esta ideia na poética de Campos, nomeadamente no poema ;:
“Fraternidade com todas as dinâmicas!”; “Amo-vos a todos, a tudo”; “Como eu vos amo de todas as maneiras”; “[...] eu acho isto belo e amo-o!”, “Como eu vos amo[...] nem bons nem maus”.
Para o heterónimo pessoano – numa primeira instância – todas as coisas também são boas e positivas, mesmo o que não é assim considerado pelo senso comum:
“Banalidade interessante[...]”; “A maravilhosa beleza das corrupções políticas / Deliciosos escândalos [...]”; “[...] orçamento é tão natural [...]”; “[...] parlamento tão belo [...]”; “Maravilhosamente gente humana [...]”; “Fauna maravilhosa [...]”.
Whitman utiliza as sensações enquanto tema, mas também como motivo para a escrita poética:
“A vista, o ouvido, o tacto são milagres [...]”; “O odor destas axilas [...]”, na pág. 61; “O meu discurso é gémeo da minha visão [...]”, na pág.65; “[...] olhando-te simplesmente!”, na pág.67; “Mexo, aperto, sinto com os meus dedos [...]”, na pág. 71; “As dores [...] nas pernas e no pescoço [...] Tudo isso sinto ou sou.”, na pág. 91; “Faço parte, vejo e oiço tudo.”, p.95.
Nesta fase futurista sensacionista de Campos, o poeta acolhe todas as sensações:
“[...] de tudo com que eu sinto!”; “[...] vos querer com [...] expressão de todas as minhas sensações”; “ A todos os perfumes [...]”; “O cheiro fresco a tinta [...]”; “Como eu vos amo [...] Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto / E com o tacto [...]” in Ode Triunfal;.
Campos celebra o triunfo da máquina, exprimindo-se de uma forma lúbrica, como se tivesse uma atracção sexual pelas máquinas. Assim, podemos encontrar no poema Ode Triunfal; os campos lexicais de corpo e de máquina:
“lábios”, “corpo”, “costas”, “tronco”; “fábrica”, “rodas”, “engrenagens”, “máquinas”, etc.
O poeta fala das coisas de maneira tão espontânea e sedutora quanto perversa para o senso comum:
“[...] penetrar-me fisicamente de tudo isto”; “[...] (o que palpar-vos representa para mim!)”, “Amo-vos carnivoramente / Pervertidamente [...]”; “Ó fábricas, ó laboratórios, [...] Possuo-vos como a uma mulher bela”; “Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!”; “[...] putas [...]”; Masturbam homens [...]”.
Whitman também manifesta um desejo lúbrico em relação às coisas:
“Despe-te [...]”, p. 21; “[...] centenas de afectos”, p. 33; “[...] lábios entreabertos, / A prostituta [...]”, p. 39; “[...] suaves genitais”, p. 63; “[...] meu peito nu”, p. 71; “[...] às minhas carícias”, p.79; “[...] vindo a mim nus [...]”, p. 127.
Ele escreve também sobre as máquinas:
“O maquinista [...]” e “[...] na / fábrica ou na oficina”, p. 77.
No que tem a ver com a estrutura externa, os poemas de ambos não têm isometrismo, nem isomorfismo, nem rima. Os versos são brancos e longos. Estas características estruturais representam a liberdade que ambos os poetas reclamam e que está relacionada com a vida moderna e, assim, com a estética futurista.
Quanto às diferenças entre os poetas – não esquecendo que nos limitámos ao confronto do poeta norte-americano com a segunda fase de Campos, ou com a face futurista sensacionista se quisermos –, podemos referir o facto de Campos ser demasiado excessivo na expressão: usa, exageradamente, onomatopeias, interjeições, exclamações. Por oposição, Whitman é calmo e moderado a escrever.
Mas Whitman é constantemente feliz:
“[...] estou exauste mas não infeliz”, p. 93; “Não é o caos nem a morte... [...] é a Felicidade”, p.141.
Já Campos, mesmo com a euforia e a exaltação da vida moderna, mostra sinais de pessimismo e melancolia.
“(Na nora do quintal da minha casa / O burro anda à roda, anda à roda, / E o mistério do mundo é do tamanho disto. / Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. / A luz do sol abafa o silêncio das esferas / E havemos todos de morrer, / Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, / Pinheirais onde a minha infância era outra coisa / Do que eu sou hoje...)” .in «Ode Triunfal»
Este excerto reflecte a nostalgia da infância, o mistério do mundo e a fatalidade da morte, que são temas disfóricos, melancólicos, utilizados nos poemas da fase – da face – intimista de Campos. Ou seja, já nos poemas eufóricos, Campos mostra um esgotamento das sensações e uma abulia da alma, como oposição a Whitman.
E                 Em suma, apesar de Whitman ser um exemplo para Campos. 
                   Este não consegue nunca ser completamente feliz e deixar de pensar, mesmo depois da 
                   exaltação da vida moderna. 

                     Editado e organizado por José Fernandes Rodriguez

sábado, 11 de dezembro de 2010

“Apontamentos para uma Estética Não Aristotélica”, de Álvaro de Campos - Síntese Documentada


Trabalho realizado por João Filipe Afonso, Nº13, 12º B, 2010/11
Prof. João Morais

SÍNTESE DOCUMENTADA DO TEXTO “APONTAMENTOS PARA UMA ESTÉTICA NÃO ARISTOTÉLICA”, de ÁLVARO DE CAMPOS (publicado in Athena, nº 3 e 4, Lisboa Dez.-Jan. 1924-25.)

A estética aristotélica defende que o objectivo final da arte é a beleza, podendo, no entanto, existirem diferentes caminhos para se atingir esse objectivo.
Álvaro de Campos afirma que a estética é uma arte, que, para assim ser considerada, terá de se basear não numa ideia de beleza, mas sim numa ideia de força e energia, que surgem em consequência da vida, pois é produzida pelos seres vivos através da intensidade e do equilíbrio entre duas forças de interacção e integração. Estas dão vida à arte através de uma acção e de uma reacção baseadas na sensibilidade, isto é, a arte é realizada por se sentir e para se sentir.
“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados”. vv. 1-2 in Passagem das horas.

“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo”. vv. 41-42 in Passagem das horas.
Para Álvaro de Campos a estética aristotélica defende que, tal como a ciência, a arte parte do particular para o geral, quando na realidade o que acontece é que arte e ciência são fenómenos opostos, logo o correcto será a arte partir do geral para o particular e o exterior tornar-se interior, contrariamente à estética aristotélica, que pretende que os artistas generalizem ou humanizem a sua sensibilidade.
“Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos”. v. 4 in Passagem das horas.  

“Passa tudo, todas as cousas num desfile por mim dentro,
E todas a cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim”. v. 69 in Passagem das horas.
Para o autor, a arte é um fenómeno social que, para ser atingida, obriga ao equilíbrio e à coexistência de dois sentimentos que o homem possui e que o fazem assumir uma forma de vida social sã: o espírito gregário, que se traduz na igualdade entre os homens, e o espírito individualista ou separatista, que os afasta. Importa ainda analisar as duas formas que o espírito antigregário ou separativo podem assumir: o isolamento (afastamento dos outros) e o domínio. Se considerarmos o domínio uma forma social contrária ao isolamento, poderemos então concluir que arte implica um esforço para dominar os outros.
“Não me subordino senão por atavismo”. v. 246 in Passagem das horas.

“Sinta na cabeça a velocidade do gira da terra,
e todos os paizes e todas as pessoas giram dentro de mim”. vv. 309-310 in Passagem das horas.

“Sou eu me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha circulo –mim!”. vv. 391-392 in Passagem das horas.

“Eu, a paysagem por detraz d’isto tudo, a paz citadina[…]
Eu, tudo isto, e além d’isso o resto do mundo...”. vv. 35-36 in Passagem das horas.
Os processos a destacar para atingir o domínio são a captação e a subjugação, que se manifestam em diferentes actividades como na política, na religião e na arte. Por exemplo, na política existe a democracia – a política de captação – e a ditadura – a política de subjugação. Na arte, tal como na política, existe a arte que domina captando, característica da estética aristotélica que se baseia na ideia de beleza, na inteligência, mais concretamente na subordinação da sensibilidade à inteligência para que aquela seja humana e universal, agradável e acessível para poder captar os outros, na unidade artificial e visível como a de uma máquina:
“Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lampada que arde” v. 339. in Ode Triunfal.
            Por outro lado, a arte em que o autor acredita e que defende é aquela que domina subjugando, baseando-se na ideia de força, na sensibilidade, que é particular e pessoal porque, se assim o não fosse, em vez de dominarmos, seríamos dominados.
            Contrariamente à arte aristotélica, Álvaro de Campos apoia-se na unidade espontânea, natural, sensorial, mas que nunca é visível, subordinando tudo a uma sensibilidade abstracta como a inteligência, forçando os outros, quer queiram quer não, a sentir aquilo que ele sentiu, ou seja, dominando-os pela força inexplicável, tal como o ditador espontâneo subjuga o povo fraco.
”Seja uma flor ou uma ideia abstracta”. v. 9. in A passagem das horas.

”Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti”. v. 103 in Passagem das horas.

”Tenho a fúria de ser raiz”. vv -  280. in A passagem das horas.
”Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,”. v. 314 in Passagem das horas.

”Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques/ […]”. vv. 332-336 in Passagem das horas.
”Assim como não gosto da vida, mas gosto de sentil-a…”. v. 95 in Passagem das horas.

Para Álvaro de Campos existem os artistas aristotélicos falsos e os verdadeiros; e os não aristotélicos verdadeiros, por um lado, e os simuladores, por outro lado: não é a teoria que faz o artista, mas sim o facto de se ter nascido artista.
”O binómio de Newton é tão belo como a Venus de Milo
O que há é pouca gente para dar por isso.” vv. 1-2  in Poema 115 [69 – II.]
A arte dos gregos retrata correctamente a teoria estética não aristotélica da arte baseada na força e na vitalidade, pelo facto de a beleza, a harmonia não serem conceitos provenientes da inteligência, mas disposições íntimas da sensibilidade. Os artistas gregos emitiam sensibilidade sobre tudo o que realizavam, contrariamente ao que acontece com a sensibilidade mais próxima de nós, alterada e adulterada pelas diferentes forças sociais, nomeadamente pelos romanos e franceses, que não permitiram que recebêssemos essa emissão de sensibilidade e emoção estética a não ser através do uso da inteligência.

Para o autor existem ainda mais restrições àquilo que desejamos chamar e considerar arte, pois uma simples ideia intelectual de beleza não habilita o artista a criar beleza: só a sensibilidade a cria e emite, da mesma forma que a mesma simples ideia intelectual de força pode não estar habilitada a criar a força que pretende criar, não passando de uma simulação da arte da força que acaba por não criar nada. Alguns artistas fazem arte não aristotélica falsa, porque não prescindem da arte aristotélica: realizam espontaneamente e exclusivamente má arte aristotélica, dado que a realizam com o recurso à inteligência e não com a sensibilidade.
”Estou cansado da intilligencia
Pensar faz mal às emoções
Uma grande reacção aparece.” vv.1-3 in Poema 43 [7I – I6].
Para Álvaro de Campos e até à sua actualidade existiram apenas três verdadeiras manifestações de arte não aristotélica: os poemas de Walt Whitman, as do mestre Caeiro e as suas próprias odes – por exemplo a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”.

            “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.” v. 19 in Poema segundo – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “O rebanho é os meus pensamentos,
            E os meus pensamentos são todos sensações.” vv. 2-3 in Poema nono – O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.

            “Uma hora para a loucura e a alegria! Ó furiosos! Oh, não me confinem.
            (O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
            Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos rugidores?)” vv 1-3 in Uma hora para a loucura e alegria, de Walt Whitman.

COMENTÁRIO FINAL
Pelo que ficou exposto, a obra de Álvaro de Campos apresenta uma face futurista sensacionista, defendendo uma estética não aristotélica baseada não na beleza, nos meros sentimentos e na inteligência, mas sim numa poesia triunfal, enérgica, carregada de emotividade e baseada na ideia de força individual, que se manifesta na vida subjugando os outros sem procurar captá-los pela razão. O poeta manifesta uma predilecção pela beleza feroz – “A maravilhosa belesa das corrupções políticas,” vv - 73. in Ode Triunfal – que simboliza a força da vida e da civilização industrial da época, contrariando a concepção aristotélica de beleza e realizando assim uma arte vigorosa.
“Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída” vv. 134-135. in Ode Triunfal,
O poeta procura ainda a totalização das sensações, conforme as sente ou pensa, ou seja, como poeta sensacionista, a única realidade são as sensações, expressando-as com uma energia explosiva, procurando sempre sentir a violência e a força dessas sensações:“sentir tudo de todas as maneiras”.

Será uma forma de escamotear a fragilidade ontológica de Fernando Pessoa?
Atentemos, a esse título, uma passagem da “Ode Triunfal”: na voragem e na força voluptuosa da máquina e do movimento emerge a “[…] infância [que] era outra coisa / Do que eu sou hoje…” vv. 189-90.

Registos Bibliográficos:
Os textos foram retirados da edição crítica de Cleonice Berardinelli: 
Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1990.