O BlogBESSS...

Bem-Vindos!


Blog ou Blogue, na grafia portuguesa, é uma abreviatura de Weblog. Estes sítios permitem a publicação e a constante atualização de artigos ou "posts", que são, em geral, organizados através de etiquetas (temas) e de forma cronológica inversa.


A possibilidade de os leitores e autores deixarem comentários, de forma sequencial e interativa, corresponde à natureza essencial dos blogues
e por isso, o elemento central do presente projeto da Biblioteca Escolar (BE).


O BlogBESSS é um espaço virtual de informação e de partilha de leituras e ideias. Aberto à comunidade educativa da ESSS e a todos os que pretendam contribuir para a concretização dos objetivos da BE:

1. Promover a leitura e as literacias;

2. Apoiar o desenvolvimento curricular;

3. Valorizar a BE como elemento integrante do Projeto Educativo;

4. Abrir a BE à comunidade local.


De acordo com a sua natureza e integrando os referidos objetivos, o BlogBESSS corresponde a uma proposta de aprendizagem colaborativa e de construção coletiva do Conhecimento, incentivando ao mesmo tempo a utilização/fruição dos recursos existentes na BE.


Colabore nos Projetos "Autor do Mês..." (Para saber como colaborar deverá ler a mensagem de 20 de fevereiro de 2009) e "Leituras Soltas..."
(Leia a mensagem de 10 de abril de 2009).


Não se esqueça, ainda, de ler as regras de utilização do
BlogBESSS e as indicações de "Como Comentar.." nas mensagens de 10 de fevereiro de 2009.


A Biblioteca Escolar da ESSS


PS - Uma leitura interessante sobre a convergência entre as Bibliotecas e os Blogues é o texto de Moreno Albuquerque de Barros - Blogs e Bibliotecários.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Cenário de Resposta da Ficha sobre Miguel Torga («SÍSIFO»)


            Na presente composição Miguel Torga reatualiza o mito de Sísifo, com contornos bem pessoais que não se compaginam com a vertente trágica que a antiguidade clássica configurou no mito original.

            Em primeiro lugar, o poema apresenta como tema a insatisfação enquanto condição necessária para a realização humana, ou seja, um programa de vida centrado na vontade da superação humana. Este programa de vida é caracterizado, ao longo do poema, por ser um processo contínuo e metódico marcado pelo inconformismo, pela persistência e pelo esforço incessante na superação das dificuldades (“Sem angústia e sem pressa” / “Enquanto não alcances / Não descanses.”). O sujeito lírico defende, como valores de maior importância, a ambição insaciável e a liberdade (“Sempre a sonhar” / “E, nunca saciado,” / “E os passos que deres” / “Dá-os em liberdade”).

            O título, Sísifo, segundo a mitologia grega, era rei de Corinto, que, após denunciar os atos cruéis de Zeus, foi castigado a permanecer no Hades, eternamente, onde era forçado a realizar a tarefa impossível de carregar indefinidamente uma rocha até ao cume de uma encosta, pois ela acabava sempre por resvalar para o sopé do monte. Sísifo torna-se, assim, um símbolo da persistência e do esforço desmedido. O título transmite, então, a ideia de uma vida de luta pelos objetivos, pela ambição e pela persistência perante as dificuldades o que se verifica ao longo do poema (“Enquanto não alcances / Não descanses.” / “E, nunca saciado,”). No poema observa-se uma reatualização do mesmo mito, pois, por um lado, o sujeito lírico exorta o leitor ao combate, à ação e ao inconformismo com as dificuldades, à semelhança de Sísifo, na concretização dos seus sonhos (“Enquanto não alcances / Não descanses.”) mas, por outro lado, em oposição ao mito de Sísifo, incentiva e valoriza a prática deste comportamento em plena liberdade (“E os passos que deres” / “Dá-os em liberdade”). É essa vontade de superação em completa liberdade e não enquanto peça duma predestinação que Torga propõe ao seu leitor.

        Relativamente à pontuação, é de realçar o valor das reticências que acompanham o primeiro verso. Elas pressupõem a ideia de continuidade inerente ao trabalho de esforço na vida que nunca acaba. O uso do ponto de exclamação no verso “És homem, não te esqueças!” concorre para o calor humano que deve animar o pendor ético do texto, a ser partilhado pelo leitor através dos múltiplos apelos do sujeito poético. Os pontos finais, corroborados pelas vírgulas, estruturam as frases declarativas, que exprimem o ideário do esforço e a ética da coragem e do vigor do homem – expressão de um humanismo a que não é alheio o desespero pela ausência do cumprimento desse esforço por parte de muitos de nós.

          A utilização de formas verbais no imperativo (“Recomeça…”) e no presente do conjuntivo com valor imperativo (“Enquanto não alcances / Não descanses / De nenhum fruto queiras só metade”) concorrem para a componente exortativa do poema. O sujeito lírico tem como objetivo, através do uso destas formas verbais, aconselhar e promover a adesão do leitor ao programa de vida por ele preconizado.

            O recurso a versos curtos e a consoantes sibilantes imprimem ao poema um ritmo lento, intimista – quase como quem sussurra –, o qual se coaduna com o ideal de serenidade que o sujeito lírico defende (“Sem angústia e sem pressa”). O ritmo lento que percorre a composição poética reflete o trabalho calmo, meticuloso e sem pressa que deve caracterizar a ação humana.

            No que se prende com os ecos que a tradição literária nos lega, o poema Sísifo, por um lado, transmite uma ideia oposta à filosofia de Ricardo Reis. Se, por um lado, neste poema há um apelo à persistência (“Recomeça…”) e à insatisfação (“E, nunca saciado”), por outro lado, no caso do heterónimo de Pessoa, encontramos a ideia de passividade e de demissão (“Sossegadamente fitemos o seu curso” in “Vem sentar-te comigo Lídia à beira do rio”). A valorização do sonho e da loucura ao longo do poema, por outro lado, compraz-se com a “loucura” pessoana da Mensagem, na medida em que permite resgatar os homens da mediocridade, permitindo que estes cumpram a sua dimensão humana (D. Sebastião, rei de Portugal). O tema deste poema é também abordado n’ Os Lusíadas, nomeadamente no canto VI. Neste canto, o poeta reflete sobre o verdadeiro valor da glória e as formas de alcançar a mesma: com esforço, perseverança, sofrimento e humildade.

            Em suma, este poema é um “hino à condição humana”, na medida em que valoriza uma ética centrada na liberdade e no sonho, e constitui uma exortação ao espírito de resistência, insubmissão e perseverança do ser humano, simbolizado no esforço incessante de superação do homem.

    Autora: Maria Inês Vidal e João Carrejana, 12º B
    Prof. João Morais

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A importância do sonho nas realizações humanas

Na sociedade em que vivemos, que está em constante evolução, a educação, por um lado, tem um papel fundamental no seu desenvolvimento e funcionamento e, por outro lado, concede a cada cidadão capacidades básicas para a sua vida individual. 

Ao nível profissional, a educação auxilia o desenvolvimento intelectual e o raciocínio, que, face a um problema, nos vão ajudar a encontrar uma resolução mais acertada. Ela é um fator determinante na vida de um cidadão, sendo essencial para arranjar o emprego que ele aspira ter, ou, ainda, elevá-lo a cargos mais importantes, conferindo-lhe benefícios económicos, como a estabilidade financeira, e pessoais. Várias estatísticas e estudos como o Do the Benefits of College Still Outweigh the Costs?, de Abel e Deitz, provam que graduados apresentam um menor risco de ficarem desempregados, arranjam empregos com salários superiores e estão mais satisfeitos do que aqueles que têm apenas um diploma de 12ºano. 

O ser humano vive em sociedades, a maioria delas democráticas, e as ações de um indivíduo têm quer consequências pessoais, quer interpessoais. A educação desenvolve o espírito crítico do cidadão, competência que lhe permite participar e envolver em múltiplos aspetos da sociedade de forma responsável. Por exemplo, o voto nas sociedades democráticas é um direito que tem o poder de alterar a vida humana. Um estudo de Edward L. Glaeser, da Universidade de Harvard, conclui existir uma grande correlação entre a educação dos cidadãos e a sua participação na política democrática. 

Ao nível pessoal, a educação que se possui tem a capacidade de alterar o curso da vida de um cidadão. Ela permite-nos ter consciência de quem somos, do mundo que nos rodeia e do que está certo ou errado, possibilitando-nos agir de forma a fazer escolhas mais corretas para nós próprios e o outro. O estudo The impact of education on crime: international evidence, de Randi Hjalmarsson e Lance Lochner, revela que a educação reduz, efetivamente, o risco de um adolescente se tornar um criminoso. 

Em conclusão, a educação assume um papel de grande importância, sendo um fator determinante e transversal a diversas vertentes da vida humana. Pessoalmente, perante o reconhecimento dos seus benefícios, considero que o ser humano deve realizar um forte investimento nesta área da sociedade.

    Autora:João Carrajana, 12º B
    Prof. João Morais

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A importância do sonho nas realizações humanas


O sonho constitui a forma mais genuína e intuitiva que o ser humano tem de expressar os seus desejos, objetivos, anseios, inclinações e motivações. Os sonhos são o resultado das nossas vivências, daquilo que já passamos na vida ou que ainda queremos viver. Outras vezes, são o resultado das nossas frustrações por não termos aquilo que não nos é possível alcançar. Assim, sonhar é um ato natural do ser humano, que possui um papel bastante importante na evolução não só a nível pessoal mas também a nível social, económico e até mesmo científico. 

O sonho é, então, um estimulador para o avanço do Homem e consequentemente do mundo. Por exemplo, Neil Armstrong, cientista de profissão, sempre teve o sonho de ser o primeiro homem a chegar à Lua. Apesar da falta de conhecimentos científicos e de meios para o fazer, este homem, apesar de algumas tentativas falhadas, lutou e conseguiu atingir o seu sonho e ser o primeiro homem a pisar o solo lunar. Assim, este indivíduo, além de realizar o seu sonho, contribuiu ainda com uma enorme descoberta científica que conduziu a humanidade para avanços significativos, nomeadamente a nível científico. 

Por outro lado, o sonho pode funcionar como um agente de mudança a nível social. Tendo como exemplo Marthin Luther King, um ativista norte-americano que lutou contra a discriminação racial e se tornou num dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Verificamos que, graças ao seu sonho, que divulgou através do seu famoso discurso “I have a dream” e recorrendo a manifestações públicas, conseguiu aos poucos e juntamente com outros que possuíam a mesma ambição dele atingir gradualmente o objetivo de diminuir a discriminação racial no seu país natal, o que levou não só a uma mudança significativa de mentalidade por parte da sociedade em que se inseria mas também a uma mudança a nível social, sendo hoje reconhecido o estatuto de igualdade entre as diferentes raças. 

Assim, concluímos que o sonho comanda a vida humana. Direta ou indiretamente, o sonho influencia a nossa maneira de agir e pensar, encorajando-nos a melhorar a realidade em que vivemos. É o ponto de partida para se conseguir atingir os objetivos que definimos para nós mesmos, podendo, uma vez atingido esse sonho, influenciar toda uma sociedade quer a nível científico, quer social, quer económico.

    Autora: Beatriz Bharwany, 12º B
    Prof. João Morais

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Cenário de Resposta do Texto Argumentativo de Português

A importância do reconhecimento do mérito 

Pode afirmar-se que o reconhecimento do valor de alguém pelos seus atos e realizações tem um contributo muito positivo para a vida da pessoa em questão. Assim, a atitude de reconhecimento genuíno do valor do Homem constitui um sentimento positivo que acrescenta um estímulo, uma motivação, uma valorização e um desenvolvimento pessoal. 

Por um lado, o ser humano é um ser social. Não existe ninguém que não tenha cultura por si mesmo, que não apresente uma soma de conhecimentos, costumes, crenças, visões da realidade, mentalidades, mitos e ações peculiares. A valorização humana é um fator primordial para se alcançarem resultados positivos. O enaltecimento do mérito de uma pessoa estimula-a e motiva-a a ser melhor no que faz, pois não só são tidos em conta os seus resultados finais, mas também o esforço e dedicação do indivíduo. Assim, o reconhecimento do mérito impulsiona a competitividade e o aumento da produtividade, fazendo com que a sociedade cresça positiva e saudavelmente. Apresentamos a título exemplificativo as empresas que procuram estratégias para manter os colaboradores e valorizar os seus potenciais. Empresas que se preocupam com a valorização dos seus empregados são mais humanizadas, produtivas e possuem colaboradores felizes, satisfeitos e comprometidos com o seu desenvolvimento pessoal e profissional. A valorização do mérito de cada funcionário é de suma importância para o crescimento organizacional, devido a um maior compromisso do colaborador em relação às atividades exercidas e às responsabilidades existentes. 

Por outro lado, desenvolver ações de solidariedade social promove o bem comum e a felicidade para além de aumentar os valores da pessoa. Define-se como bem comum um conjunto de condições que capacitam os membros de uma comunidade a alcançar, por si mesmos, objetivos razoáveis e que os motivam a colaborar mutuamente numa comunidade. A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana, sendo caracterizada por atos altruístas que visam ajudar e promover o bem-estar de uma sociedade. Alguns estudos revelam que, após a promoção de uma atitude solidária, o cérebro liberta a substância endorfina, que provoca a sensação de felicidade. No nosso quotidiano existem diversas associações que têm como objetivo ajudar os mais desfavorecidos, entrando em vigor os valores sociais. Temos como exemplo a UNICEF, Fundo da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Infância, a qual trabalha em 158 países e se dedica à promoção dos direitos das crianças e dos jovens, procurando dar resposta às suas necessidades básicas e contribuir para o seu pleno desenvolvimento. 

Em suma, podemos concluir que, de facto, é importante reconhecerem-se os seres humanos pelos seus valores, pois, nos tempos atuais, em que passamos por profundas e constantes transformações, uma das maiores crises que enfrentamos é a que envolve a ausência de valores, estimulando uma interação conflituosa, egoísta, desumana e agressiva, instituída e sustentada em alicerces impróprios. É, pois, essencial enfatizar a importância dos bons exemplos de conduta, base de um futuro mais pacífico e sustentável.

   Autora: Mariana Pinto, 12º B
    Prof. João Morais

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Ricardo Reis: o poeta clássico


Correção do grupo III do teste do 12º B


Ricardo Reis: o poeta clássico 

Ricardo Reis é um dos três heterónimos de Fernando Pessoa que receberam especial destaque na sua carta a Adolfo Casais Monteiro a 13 de janeiro de 1935. Idealizado como homem moreno, baixo e seco de carnes, Ricardo Reis é médico e, apesar de ter nascido em 1887 no Porto, está desde 1919 no Brasil pelo facto de, devido aos seus ideais monárquicos, se ter expatriado espontaneamente. De estilo predominantemente neoclássico, a sua escrita assenta na herança greco-romana e é influenciada por Horácio, poeta latino que lhe serve de modelo. Reis assume-se como um latinista e semi-helenista, que é influenciado pelas teorias filosóficas epicurista e estoico, aderindo afincadamente ao culto da tranquilidade. 

Inspirado em Horácio, poeta romano do século I a. C., Ricardo Reis, como classicista genuíno, evidencia especial preferência pela ode. Sendo um género literário de índole greco-romana, de estilo particularmente elevado e solene, que pretende glorificar alguém ou algo, a ode é utilizada por Reis com o intuito de exaltar um programa de vida, o programa por ele defendido, que assenta na aceitação calma e tranquila da vida, sem que haja qualquer tipo de perturbação. 

Por ter estudado num colégio jesuíta antes de se formar em Medicina, Reis domina fortemente a cultura latina e aplica-a à grande maioria das suas obras. Assim, com uma linguagem culta, rigorosa e de saber erudito, e num estilo rebuscado e sentencioso, constrói persistentemente frases imperativas, forma de convidar a sua companheira intelectual a aderir ao seu programa de vida, e recorre a latinismos tanto a nível lexical (“E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro” – v. 29 in “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”) como a nível sintático, visível através do uso da anástrofe (“ Solene passa sobre a fértil terra” – v. 1; “Tal me alta na alma a lenta ideia voa” – v. 5 in “Solene passa sobre a fértil terra”). 

Na escrita de Reis é recorrente a alusão a elementos mitológicos que evidenciam a consciencialização de que o poeta tem da morte. Desta forma, a ideia da aceitação fatalista do destino e a referência aos deuses da antiguidade greco-romana constituem alguns dos aspetos por ele mais abordados. A convicção da efemeridade da vida é algo que assombra o sujeito poético. Defende, assim, que todos, até mesmo os deuses (“Dizer-te. A resposta/ Está além dos Deuses” – vv. 20 e 21 in “Segue o teu destino”), estão sujeitos a uma força maior, o destino, que surge como entidade deletéria que impede a vivência tranquila muito por ele desejada (“Sofro, Lídia, do medo do destino” – v.1 in “Sofro, Lídia, do medo do destino”). 

À semelhança dos poemas horacianos, também na escrita de Ricardo Reis conseguimos testemunhar a predominância de ideais epicuristas. A atitude de adesão ao mundo, a de viver conforme a natureza e a da racionalização das emoções são princípios em que assenta esta teoria filosófica, que tem como principal objetivo libertar o Homem do medo da morte. É então a consciencialização da efemeridade da vida que justifica a vivência dos prazeres brandos por parte do sujeito poético, que lhe proporciona uma experiência de vida tranquila baseada na ideia de gozar o presente ou carpe diem (“[...] Colhe/ O dia, porque és ele.” – vv.7 e 8 in “Uns, com os olhos postos no passado”) . Com o intuito de alcançar tal idealização, leva mesmo o conceito de paganismo ao extremo e, desprezando por completo as construções sociais, chega a tornar-se um ser associal (“E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude” – vv. 2 e 3 in “Prefiro rosas, meu amor, à pátria”). No entanto, apresenta-se como “epicurista triste”: tais ideais não passam de um meio para se autoconvencer de algo em que não acredita efetivamente. Vive por isso aterrorizado com o processo de envelhecimento, com a morte e com a tirania do fatum a que todos estão vulneráveis (“[...] indo/ Para a velhice como um dia entra/ No anoitecer” – vv. 10-12 in “Sofro, Lídia, do medo do destino”). 

Na grande maioria dos seus poemas é também visível a frequente recorrência ao tema da renúncia e do desapego como forma de promover o culto da ataraxia, a possibilidade de viver sem qualquer tipo de perturbação que possa culminar em sofrimento, para não comprometer uma vivência tranquila e feliz (“Segue o teu destino,/ Rega as tuas plantas,/ Rega as tuas rosas./ O resto é a sombra/ De árvores alheias.” vv. 1-5 in “Segue o teu destino”). Como forma de travar a sua vulnerabilidade face ao emprego das emoções, principais agentes causadores de inquietação, o sujeito poético refugia-se na razão, sendo esta o elemento essencial para a apreensão do real e para a aceitação serena do destino sem qualquer preconceito nem medo do que a ele está iminente (“Mas serenamente/ Imita o Olimpo/ No teu coração.” – vv. 21-23 in “Segue o teu destino”). 

Em suma, a poética de Ricardo Reis é amplamente influenciada pela cultura clássica de herança greco-romana. A preferência pela ode como forma de exaltar um programa de vida que se baseia na associação das duas teorias filosóficas de origem helenista, o epicurismo e o estoicismo, a prioridade conferida à vivência dos prazeres brandos da vida ou aurea mediocritas como forma a evitar qualquer tipo de exaltação que possa causar sofrimento, o afastamento das idealizações sociais por parte do sujeito poético e a renuncia à mudança da ordem do mundo são tudo características da escrita de Reis que corroboram o ideal clássico que a ele é inerente.

   Autora: Teresa Abrantes, 12ºA
    Prof. João Morais

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ricardo Reis, o poeta clássico

Correção do grupo III do teste do 12º B

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, cultiva um neoclassicismo neopagão, recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a vida como um tempo efémero, sendo, assim, a morte iminente. 

Influenciado pela sua formação helénica e latina, Reis escreve odes inspiradas na doutrina epicurista de Horácio. As suas odes apresentam um estilo rigoroso e denso, com a preocupação de traduzir a ideia numa expressão perfeita. Através do uso desta estrutura poética, Reis procura a exaltação da vida, tempo do efémero (“No mesmo hausto/ Em que vivemos, morremos.” – vv.6-7 do poema Uns, com os olhos postos no passado). 

Nos seus poemas, recorre frequentemente a construções eruditas e latinizantes. A sintaxe clássica latina, com a inversão da ordem lógica das palavras através do uso da anástrofe (“Um sopro arrefecido” é o sujeito da frase deslocado para o final da estrofe em Solene passa sobre a fértil terra), favorece o ritmo das suas ideias disciplinadas. Para além disso, a vinculação do estilo culto de Reis é conseguida pela utilização de vocábulos muito eruditos, como óbolo (“E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,” – v.29 do poema Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio), aspeto que concorre para conferir latinidade à poesia. 

Ricardo Reis cultiva a mitologia greco-latina e a crença nos deuses antigos, enquanto força disciplinadora das nossas emoções e sentimentos. Este poeta clássico considera os deuses como um modelo de comportamento, o exemplo a seguir por todos os homens, pela razão de que não se questionam, “não se pensam”, aceitando a ordem do mundo. Os deuses não são mais do que seres mais perfeitos ou aperfeiçoados. O classicismo deste heterónimo encontra-se presente não só nas referências mitológicas (“ […] barqueiro sombrio” – refere-se a Caronte – v.29 do poema Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio), mas também nos temas que têm a ver com a cultura clássica latina: a efemeridade da vida e a iminência da morte. 

Deste modo, Reis é o heterónimo que projeta Pessoa para a Antiguidade Clássica. É o poeta que, à semelhança de Horácio, na Roma Antiga, se refugia na aparente felicidade pagã que lhe vela e esbate o desespero. A filosofia de vida de Ricardo Reis, inspirada no epicurismo, defende o prazer do momento, o carpe diem (“ […] Colhe/ O dia, porque és ele” – vv.7-8 do poema Uns, com os olhos postos no passado) como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. 

Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, Reis considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, isto é, a ataraxia. Sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente a qualquer prazer dinâmico (“Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,” – v.13 do poema Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio), numa verdadeira ilusão de felicidade, conseguida pela renúncia e pela disciplina estoicas. Considera, portanto, que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”. 

Assim, advogando o carpe diem, o prazer natural mas controlado, sem paixões violentas, tem plena consciência da brevidade de tudo, da passagem do tempo, da fragilidade da nossa condição e da inevitabilidade da morte. Por isso, considera importante saber viver os pequenos prazeres de forma desapegada, com equilíbrio e serenidade (“Grande e nobre é sempre/ Viver simplesmente.” – vv.12-13 do poema Segue o teu destino). 

Em suma, Reis é clássico no estilo, no rigor, no estoicismo, na adoção do paganismo, na crença nos deuses da mitologia clássica, no exercício da razão. Aceitar o mundo, a vida e aquilo que somos é para este heterónimo de Fernando Pessoa o único caminho para atingir a felicidade.

    Autora: Maria Inês Vidal, 12ºB
    Prof. João Morais

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Caeiro: das sensações à natureza e à dor de pensar no ortónimo


Segundo a carta de Fernando Pessoa a Casais Monteiro, a 13 de janeiro de 1935, Alberto Caeiro é uma das personagens fictícias arquitetadas e a quem foram atribuídas uma biografia, uma fisionomia e uma obra. Nos poemas de Caeiro, com uma escrita simples e espontânea, é visível a valorização máxima das sensações que o sujeito poético experimenta bem como a relação de harmonia que estabelece com a natureza. Estes ideais são transversais à grande maioria dos poemas deste heterónimo e surgem integrados numa doutrina que o sujeito poético dirige e tenta seguir impreterivelmente. 

Tal como sugere uma das mais conhecidas obras de Caeiro, O Guardador de Rebanhos, o sujeito poético declara-se pastor por metáfora (“Minha alma é como um pastor,/ Conhece o vento e o sol/ E anda pela mão das Estações/ A seguir e a olhar” – vv. 3-6 do Poema Primeiro de O Guardador de Rebanhos). Desta forma e à semelhança de um pastor, a relação que estabelece com a natureza é essencial para a uma existência serena e despojada de qualquer sofrimento, assim surgem repetidamente palavras do campo lexical da natureza (“O que é preciso é ser-se natural e calmo” – v. 14 do poema XXI de O Guardador de Rebanhos). 

Porém, esta comunhão entre o sujeito poético e a natureza só é passível de ser estabelecia através da supremacia das sensações. Estas é que conferem ao sujeito poético a capacidade de apreender na sua plenitude a realidade que o rodeia e experimentar a felicidade (“Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/ Sei a verdade e sou feliz.” – vv. 13 e 14 do poema XXI de O Guardador de Rebanhos). Assim, o primado das sensações assume um papel central e fundamental para o bem-estar do sujeito poético resultando na vivência em sintonia com a natureza na sua variedade. 

Enquanto, na poesia de Fernando Pessoa ortónimo o sujeito poético se cinge ao exercício da razão e, por isso, experimenta uma angústia existencial, na poesia de Caeiro, ocorre o contrário. O sujeito poético goza somente das sensações perspectivando o aniquilamento total de todo tipo de pensamento, como forma de fuga à dor e ao sofrimento (“Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.” – v. 19 do poema “Dizes-me: és mais alguma cousa” da obra Poemas Inconjuntos). Deste modo, os seus pensamentos, tal como todas as abstrações que o invadem, reduzem-se às sensações, ou seja, ao uso axiomático dos sentidos (“E os meus pensamentos são todos sensações” – v. 3 do poema IX de O Guardador de Rebanhos). 

Em suma, como criador do Sensacionismo, Alberto Caeiro destaca, de forma inigualável, a supremacia das sensações, vivenciadas pelo sujeito poético e indissociáveis do bucolismo, característico nas suas obras. É, então, através do gozo das sensações que o sujeito poético apreende tudo o que o rodeia, que perceciona a realidade e vive em comunhão com a natureza, abandonado o exercício da razão de forma a evitar todo o tipo de sofrimento e a usufruir de uma tranquilidade que lhe é inerente.

Autora: Teresa Martins Abrantes (12º A)
Prof. João Morais